“com você, eu estava em outro lugar, um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo…”
10 Jan
a janela do box do banheiro tem face para o leste e lembro bem de quando era criança tomando banho de manhã - a água caia do chuveiro refletindo a luz da aurora e criava, só para mim, uma porção de prismas coloridos e arcos-íris particulares.
não conhecia os conceitos de física ótica e aquilo despertava um sentimento mágico que foi se perdendo. naturalmente. como agora, cada vez menos tenho prestado atenção nos detalhes coloridos do cotidiano. não tenho tido momentos epifânicos para escrever sobre. a vida tem se mostrado bem mais objetiva e menos poética. naturalmente. mas decidi que esse ano as coisas mudarão.
vou pedir receitas novas para minhas lentes e tomar banho quando é cedo e o sol está nascendo.
27 Jul
não importou se o mundo ao redor estava caindo: o tempo não parou para eu descer. o mundo continuou a girar, os velhinhos continuaram acordando cedo para passear seus cachorros, os pingados na padaria continuaram aquecendo os peitos gelados, as pequenas revoluções cotidianas permaneceram inabaladas e as cicatrizes criaram casquinhas e sararam.
quando amanheceu, o mundo foi se refazendo.
10 Abr
era abril. início de outono. a época em que mais cometia vícios auto-destrutivos. de químicas a pessoas erradas, era o tempo dos pequenos suicídios. dos escapes. fugere urbem.
fazia 3 meses que eu trabalhava longe e não estava acostumado. no trânsito caótico, foi também a época que mais refleti sobre o que queria para vida. e você estava lá. era a liberdade. era aquele poema do manuel bandeira:
“vamos viver no nordeste, anarina.
deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
deixaras aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.aqui faz muito calor.
no nordeste faz calor também.
mas lá tem brisa:
vamos viver de brisa, anarina.”
naquela época, eu queria fugir do calor daqui e sentir os calores de outros lugares e amores.
30 Out
companhia para ir ao teatro quinta-feira a noite. exposições de arte que a gente boceja quando chega no segundo andar e entra em êxtase no terceiro. para filmes menos comerciais, curtas metragens de pouco orçamento e coerência. filas de supermercado quando as latinhas de cerveja congelam os dedos. descobrir formas em nuvens e estrelas. para formar bandas de rock imaginárias. companhia para os cigarros noturnos e escapadelas quando tudo está tediante por aqui.
30 Ago
por isso gosto do tempo assim. invernal. dos dias gelados e a gente cobre o nariz com cachecóis para poder repirar ventos que batem como lâminas. procurando frestas de sol entre as sombras dos prédios buscando conforto nas estrelas.
16 Ago
construir um novo mundo.
tudo que sonha fazer.
com meu amor… para você:
eu tive centenas de sonhos,
mas nenhum como esse.
e senti milhares coisas,
que nunca chegaram perto disso.
vamos. ver o mundo girar.
as cores colidirem,
com a esperança ao nosso lado
e tudo isto é meu.
com meu amor. para você.
a manhã conhece músicas,
cantadas como se nunca tivessem sido ouvidas.
e todos os aromas, vistas que me trouxeram vida
não conseguem conter esta alegria ainda não interpretada.
diga-me o seu sonho
e eu estarei lá.
para te servir.
com todo cuidado.
se você não se importar,
tudo o que tenho está aqui.
e tudo que eu tenho, eu darei.
com meu amor. para você.
9 Ago
joana perguntou se chegar ao topo, sua vida seria completa. se automaticamente conteria tudo. respondera que não, que existe um grande percurso entre o topo e a base.
e a vida não é destino, é a viagem.
22 Jul
estava com saudades e vontades de escrever. estou apaixonado. essa é a força invencível que move o mundo. como baudelaire, é preciso estar sempre embriagado; enivrez-vous sans cesse! de vin, de poésie ou de vertu, à votre guise, mas embriague-se. estou embriagado.
3 Nov
comprei fones de ouvidos novos. já devo ter falado sobre isso em algum dos diários anteriores, mas estes novos são melhores: eles vedam qualquer possibilidade de exterior.e se tudo se resumisse a sentidos auditivos, a gente cria um mundo selecionável onde só temos o que queremos, nos deixa bem.
porque não podemos ter só o que queremos, o que escolhemos, mas ter algum controle em certas coisas é anestésico para esses dias que cansam.
17 Out
olhar e enxergar os detalhes, a importância e influência que exercem as pequenas coisas. as sutilezas dos contrastes finos. as hastes e corpos dos caracteres e as texturas dos reflexos que as luzes fornecem aos olhos.nós vestimos e refletimos o que fazemos: na escolha das roupas, mesmo sem querer, diagramando recheio de sanduíches e guardanapos sobre a mesa, o jeito bagunçado-arrumado de organizar gavetas e papéis, de escrever monografias e slides acadêmicos, acabo vivendo isso, 24 por 7.
e é com isso que eu acho que todos deviam trabalhar. com coisas que são obrigações agradáveis. trabalhos, conceitos, estéticas que transportamos do ambiente “work” e utilizamos no dia-a-dia e nos transformam em pessoas melhores. pessoas mais interessantes e diferentes. as pessoas apaixonadas, mesmo que por assuntos diferentes, são pessoas melhores. a paixão, o tesão. é isso que faz o mundo girar. e é isso que tenho pelo que eu faço e vivo.
eu trabalho com design, adoro fazer meu “trabalho”. parece que transformo pedacinhos de nosso mundo para deixá-los esteticamente mais agradáveis aos olhos. e isso já me gratifica muito.
–
ps: 20.07.08 - hoje trabalho com marketing alternativo, buzz marketing e comunicação digital. mas sempre focado na área de criação. você pode saber mais sobre o que eu faço no meu blog de trabalho.
21 Ago
eles morriam a cada vez que se despediam. desta vez para sempre. em aeroportos os passos eram em caminhos opostos. olhando para trás tentando adiar ausências eram pára-quedas que aterrissariam distantes.
era liberdade. não era necessidade, era alívio, asas.
forgotten and absorbed into the earth below
the street hits the urgency of sound
as you see there’s no one around.
7 Ago
mesmo que não goste tanto assim de café, comprou uma cafeteira. para servir para as visitas de vez em quando. para deixar ligada pelas manhãs.
o café impregna pelos cômodos, perfuma os cheiros da solidão.