“com você, eu estava em outro lugar, um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo…”
2 Out
cheiro de maresia, entrar na cama quando os lençóis ainda estão frios e mexer as pernas, espreguiçar, fé que não teologa, vestir roupa que acabou de ser passada, balançar na rede, cheiro de café recém-passado, dar uma estraladinha nas costas.
10 Mar
vejo o subúrbio crescer e mudar quando tento enxergar a calçada que eu andava sem pisar nas linhas indo para a escola. e agora que foi reformada, o caminho que a gente tinha decorado para não pisar nos rejuntes e nas rachaduras dos pisos não existem mais.
mas quase não enxergo. volto do trabalho. é noite. e não me preocupo mais em pisar ou não nas linhas. vivo correndo e não presto atenção para o chão. nem para o cheiro do tempero do feijão dos jantares que sai pela janela das casas e escapole para a rua. para o portão marrom que eu passava correndo por causa do buldogue que latia. agora nem reparo se ainda há buldogue naquele portão. quando a árvore de jasmim florescia e eu ia andar no meio da rua, porque odiava aquele cheiro de jasmim.
mas agora é a época de floração do jasmim e é esse cheiro que faz lembrar a rua de cima que ficava na minha infância.
14 Dez
“o amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.”
(carlos drummond de andrade)
dos raros amores raros que possuo, rebecca é o lugar mais distante onde meu coração mora. fisicamente. são cinquenta e cinco quilômetros, um pedágio que se paga com dinheiro e um pedágio que se paga com suas maluquices. este último faz com que esta distância pareça uma eternidade e um lugar pouco confortável para se estabelecer um lar.
mas, passada essas barreiras, tudo fica bem e encontrá-la faz-me apaixonar a cada sorriso, a cada careta, a cada abraço e beijinho. seus carinhos me fazem voar e perder os sentidos. aí esqueço como isso tudo começou e então, penso em planos, calendários e se algum dia teremos algum futuro juntos. eu não sei onde seus devaneios a levarão, mas eu vou estar sempre no mesmo lugar. para você não esquecer o caminho quando querer voltar.
ela é maluca e faz vales e montanhas para os meus sentimentos.
creio que esse que seja o charme de rebecca.
7 Dez
o que acontece é que todas as escolhas me escolhem em momentos epifânicos. como quando está de dia, mas as luzes da cidade estão acesas porque está chovendo e nublado e os pára-brisas parecem dançar ritmados com os jazzes que ouço de manhã. e quando olho para frente não enxergo a rua, o engarrafamento, os outros carros. vejo os lugares onde eu gostaria de estar, as pessoas que deveria de amar e as coisas que poderia estar fazendo, mas não estou, não amo ou não faço, ou por falta de tempo, coragem ou por pura preguiça mesmo.
são nesses momentos que eu decido deixar tudo e comprar passagens para viagens, amores e combinações divertidas de cores para os próximos trabalhos.