um lugar

“com você, eu estava em outro lugar, um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo…”

sobre o tempo e a eternaidade

remédio

“os médicos disseram-me que consultei os livros errados. falaram que melhor teria sido que eu tivesse lido livros de poesia. “saudade”, explicaram-me, não é doença de olho.”

sobre o tempo e a eternaidade, p.65

significado da palavra lindo

“ah, essa palavrinha tão abusada: “lindo”. o que ela quer dizer? ela quer dizer que a coisa a que damos o nome de “lindo” faz amor com a nossa alma. quando dizemos que algo é lindo, estamos assim, confessando como somos por dentro…”

sobre o tempo e a eternaidade, p.63

imagens de saudade

“nas cavernas da memória, entretanto, só são guardadas imagens que doem ao ser lembradas. são imagens de saudade. imagens de saudade são pedaços do nosso próprio corpo, que o tempo levou. tudo o que se ama transforma-se em parte da gente.

sobre o tempo e a eternaidade, p. 56

a alma do soufflé

“o que caracteriza o soufflé não é a coisa do que ele é feito, mas uma substância etérea, pneumática, que entra na composição de todos eles. (…) o nome soufflé vem do francês. soufflé quer dizer “sopro”. a alma do soufflé é o ar: daí as suas qualidades são pneumáticas, espirituais, pois sopro, vento e espírito, etimologicamente, são a mesma coisa.”

sobre o tempo e a eternaidade, p. 44

sonhos

“se não há nada a ser feito, pelo menos que o sono seja tranqüilo e que os sonhos sejam suaves.”

outros relevantes

“a sociologia deu o nome de “outros relevantes” às pessoas que eu levo em consideração ao agir. esses outros são a platéia diante da qual eu represento o meu número de teatro, e cujo aplauso eu busco e cuja vaia eu temo.”

sobre o tempo e a eternaidade, p. 34

o caso do cinema

“uma pitada de loucura aumenta o prazer da vida. veja o caso do cinema. você vai lá, assenta-se e fica vendo um jogo de luzes coloridas projetando numa tela. você sabe que aquilo tudo é uma mentira. e, não, obstante, você treme de medo, tem taquicardia, pressão arterial alta, sua de medo, ri, chora… é um surto de loucura. você está tomando imagens como se fossem realidade. mas, se você não se entregasse por duas horas a essa loucura, o cinema seria tão emocionante quanto ler uma lista telefônica. passada as duas horas as luzes se acendem, você sai da loucura e caminha solidamente de volta para a realidade.

quem não está louco é quem desconfia dos seus pensamentos. sabe que a cabeça é enganosa: sessão de cinema”

sobre o tempo e a eternaidade, p. 33

“o tolo faz coisas sem parar, e tudo permanece por fazer. o sábio nada faz para que tudo o que deve ser feito se faça.”

sobre o tempo e a eternaidade, p. 22

problema e solução.

o que caracteriza um problema é a possibilidade de solução. você sabe que, com astúcia e paciência, você oide desfazer o nó. se não tem solução não é problema.

assim é a adolescência: ela não é problema pela simples razão de que, por mais que você pense, não há solução.

sobre o tempo e a eternaidade, p. 22

batismo

“e, enquanto todos olhavam, segredou três vezes nos ouvidos do seu filho o nome que ele havia escolhido para ele. era a primeira vez que aquele nome estava sendo pronunciado como nome daquele nenezinho. todos sabiam que cada ser humano deve ser o primeiro a saber quem ele é.

“ao final do ritual, omoro carregou seu filho até os limites da aldeia e ai levantou o nenezinho para os céus e disse suavemente: ‘fend kiling dorong leh warrata ke iteh tee’: ‘eis aí, a única coisa que é maior que você mesmo!’

sobre o tempo e a eternaidade, p. 16

escuros e tranqüilos

“quem navega com a cabeça para fora d’água nada sabe. é preciso mergulhar, penetrar fundo nas águas. (…) nós, humanos, só conhecemos os rios na superfície. (…) nas funduras os rios são escuros e tranqüilos como os sofrimentos dos homens. essa eu não sabia, que os sofrimentos são escuros e tranqüilos.”

sobre o tempo e a eternaidade, p.12

sobre o tempo e a eternaidade

sobre o tempo e a eternaidade

Sobre o Tempo e a EternaIdade / Rubem Alves
- São Paulo: Papirus, 2003.
164 páginas