um lugar

“com você, eu estava em outro lugar, um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo…”

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

ditado chinês

“O segredo, dizia Chang, o china da loja, não é o descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram. Mas Chang está morto. Existe algo mais íntimo para exibir ao mundo do que as entranhas? Existe algo tão obsceno?”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 13

poeira das estrelas

“Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas.”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 16.

“Têm sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, velado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo o que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.

Eu chamo de amor.”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 229

“De repente, sem mais nem menos, Lavínia falou:
Estou esperando um filho seu, Cauby.
Alguém poderia escrever um manual sobre como se deve reagir a esse tipo de notícia, se as circunstâncias não forem favoráveis ao casal. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Seria bastante útil para homens como eu.”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 183

“O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que a gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse.”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 154

desfez a espuma, não o sonho

“Falei que estava planejando ir embora. Lavínia gritou do chuveiro:
O que você disse?
Entrei no banheiro e puxei a cortina de plástico. Ela ensaboava o corpo.
Tô pensando em ir embora daqui.
Pra onde?
Não sei ainda. Talvez eu volte para São Paulo.
Lavínia passou o sabonete entre as pernas, levantou um monte de espuma. E sonho.
O que foi, bateu saudade de casa?
Não posso ficar aqui para sempre, tenho que dar um jeito na minha vida.
Ela guiou o jato do chuveirinho para o púbis. Desfez a espuma, não o sonho.”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 133

“Estou relendo o trecho em que o professor Schianberg se ocupa da separação dos amantes. As transitórias e as irremediáveis. Ele menciona um maluco norueguês que afundou um navio como oferenda pela volta da amada. O problema é que o navio não era dele, e deu cadeia. Eu afundaria todos os navios nesta noite, Lavínia. Incendiaria o porto. Só para ver o brilho das chamas refletido nos seus olhos escuros.”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 18

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios / Marçal Aquino.
- São Paulo: Companhia das letras, 2005.
229 páginas

Eu começo por esse. Ele que me fez não querer esquecer as pequenas identificações que impressionam quando eu começo a ler os mais queridos.