“com você, eu estava em outro lugar, um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo…”
1 Abr
“‘come to bed’, dizia você, a partir das três horas, e eu respondia ‘i am coming’, e você: ‘don’t be coming, come!’”
carta a d., p. 27
1 Abr
“tive muitas dificuldades com o amor (ao qual sartre dedicou umas trinta páginas de o ser e o nada), pois é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras.”
carta a d., p. 25
1 Abr
“você havia me dado a possibilidade de escapar de mim mesmo e de me instalar num outro lugar, do qual você me trouxera a notícia. com você eu podia deixar de férias a minha realidade.”
carta a d., p. 20
1 Abr
“se você se une a alguém para a vida inteira, os dois estão pondo em comum sua vida e deixarão de fazer o que divide ou contraria a união. a construção do casal é um projeto comum aos dois, e vocês nunca terminarão de confirmá-lo, de adaptá-lo e de reorientá-lo em função das situações que forem mudando. nós seremos o que fizermos juntos.”
carta a d., p. 18
1 Abr
“eu tinha objeções de princípio, ideológicas. para mim o casamento era uma instituição burguesa; eu considerava que ele codificava juridicamente e socializava uma relação que, sendo amor, ligava duas pessoas no que elas tinham de menos social. a relação jurídica tinha a tendência, e até mesmo a missão, de se tornar autônoma no que se refere à experiência e aos sentimentos dos parceiros.”
“eu devia ter percebido que não existia, para você, nenhuma relação com uma legalização da nossa união. ela deveria significar tão-somente que nós estávamos juntos pra valer, que eu estava pronto pra concluir com você aquele pacto para a vida inteira, pelo qual um prometia ao outro a sua lealdade, a sua devoção e a sua ternura.”
carta a d., p. 18 e 21
1 Abr
“por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, mas eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original - há pouco eu falava de “experiência fundadora”: a experiência da insegurança. […] para ambos, ela significava que não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós.”
“e precisávamos criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que originalmente nos tinha sido negado. para isso, no entanto, seria necessário que o nosso amor fosse também um pacto para vida inteira.”
carta a d., p. 13 e 15
1 Abr
“você mantinha, em relação a tudo o que é british, uma distância crítica que não excluía a cumplicidade com o que lhe é familiar. eu dizia que você era uma export only, ou seja, um desses produtos reservados só para exportação, não encontráveis nem na própria grã-bretanha.”
carta a d., p.11
1 Abr
“o que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo. […] esse mundo me encantava. eu podia escapar ao entrar nele, sem obrigações nem pertencimento. com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo.”
carta a d., p. 10
1 Abr
“compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. ”
carta a d., p. 9
1 Abr
“por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? […] ela permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”
carta a d., p. 5-6
31 Mar

carta a d. - história de um amor / andré gorz
- são paulo: annablume: cosac naify, 2008.
80 páginas.