um lugar

“com você, eu estava em outro lugar, um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo…”

livros de cabeceira

notas dos livros que ainda não foram para a estante. isto é um arquivo pessoal de passagens dos livros que ando lendo. uma espécie de registro para não esquecer.

livros lidos:

tem alguma sugestão de livro? me manda um e-mail: tiago@sushi.st

“uns tomam éter, outros cocaína.
eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria”

poemas religiosos e alguns libertinos, p.72

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  • a dama branca

    “a dama branca que eu encontrei,
    faz tantos anos,
    na minha vida sem lei nem rei,
    sorriu-me em todos os desenganos”

    (…)

    “era desejo? - credo! de tísicos?
    por histeria… quem sabe lá?…
    a dama tinha caprichos físicos:
    era uma estranha vulgívaga”

    poemas religiosos e alguns libertinos, p.70

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  • vulgívaga

    “não posso crer que se conceba
    do amor senão o gozo físico!
    o meu amante morreu bêbado,
    e o meu marido morreu tísico!”

    poemas religiosos e alguns libertinos, p. 68

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  • bacanal

    “se perguntarem: que mais queres,
    além de versos e mulheres?…- vinhos!…
    o vinho que é o meu fraco!…
    evoé baco!”

    poemas religiosos e alguns libertinos, p. 66

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  • poemas religiosos e alguns libertinos

    Poemas religiosos e alguns libertinos / Manuel Bandeira.
    - São Paulo: Cosac Naify, 2007
    112 páginas

    os livros de poemas são bons porque não precisamos necessariamente seguir a leitura linear. eu pincelo o olhar em algumas manchas tipográficas e se me atrai, eu termino de ler. desta vez, eu comecei pelos “alguns libertinos”. acho que vai me atrair mais que os “religiosos”.

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  • remédio

    “os médicos disseram-me que consultei os livros errados. falaram que melhor teria sido que eu tivesse lido livros de poesia. “saudade”, explicaram-me, não é doença de olho.”

    sobre o tempo e a eternaidade, p.65

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  • “ah, essa palavrinha tão abusada: “lindo”. o que ela quer dizer? ela quer dizer que a coisa a que damos o nome de “lindo” faz amor com a nossa alma. quando dizemos que algo é lindo, estamos assim, confessando como somos por dentro…”

    sobre o tempo e a eternaidade, p.63

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  • “nas cavernas da memória, entretanto, só são guardadas imagens que doem ao ser lembradas. são imagens de saudade. imagens de saudade são pedaços do nosso próprio corpo, que o tempo levou. tudo o que se ama transforma-se em parte da gente.

    sobre o tempo e a eternaidade, p. 56

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  • “o que caracteriza o soufflé não é a coisa do que ele é feito, mas uma substância etérea, pneumática, que entra na composição de todos eles. (…) o nome soufflé vem do francês. soufflé quer dizer “sopro”. a alma do soufflé é o ar: daí as suas qualidades são pneumáticas, espirituais, pois sopro, vento e espírito, etimologicamente, são a mesma coisa.”

    sobre o tempo e a eternaidade, p. 44

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  • sonhos

    “se não há nada a ser feito, pelo menos que o sono seja tranqüilo e que os sonhos sejam suaves.”

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  • “a sociologia deu o nome de “outros relevantes” às pessoas que eu levo em consideração ao agir. esses outros são a platéia diante da qual eu represento o meu número de teatro, e cujo aplauso eu busco e cuja vaia eu temo.”

    sobre o tempo e a eternaidade, p. 34

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  • “uma pitada de loucura aumenta o prazer da vida. veja o caso do cinema. você vai lá, assenta-se e fica vendo um jogo de luzes coloridas projetando numa tela. você sabe que aquilo tudo é uma mentira. e, não, obstante, você treme de medo, tem taquicardia, pressão arterial alta, sua de medo, ri, chora… é um surto de loucura. você está tomando imagens como se fossem realidade. mas, se você não se entregasse por duas horas a essa loucura, o cinema seria tão emocionante quanto ler uma lista telefônica. passada as duas horas as luzes se acendem, você sai da loucura e caminha solidamente de volta para a realidade.

    quem não está louco é quem desconfia dos seus pensamentos. sabe que a cabeça é enganosa: sessão de cinema”

    sobre o tempo e a eternaidade, p. 33

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  • “o tolo faz coisas sem parar, e tudo permanece por fazer. o sábio nada faz para que tudo o que deve ser feito se faça.”

    sobre o tempo e a eternaidade, p. 22

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  • o que caracteriza um problema é a possibilidade de solução. você sabe que, com astúcia e paciência, você oide desfazer o nó. se não tem solução não é problema.

    assim é a adolescência: ela não é problema pela simples razão de que, por mais que você pense, não há solução.

    sobre o tempo e a eternaidade, p. 22

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  • batismo

    “e, enquanto todos olhavam, segredou três vezes nos ouvidos do seu filho o nome que ele havia escolhido para ele. era a primeira vez que aquele nome estava sendo pronunciado como nome daquele nenezinho. todos sabiam que cada ser humano deve ser o primeiro a saber quem ele é.

    “ao final do ritual, omoro carregou seu filho até os limites da aldeia e ai levantou o nenezinho para os céus e disse suavemente: ‘fend kiling dorong leh warrata ke iteh tee’: ‘eis aí, a única coisa que é maior que você mesmo!’

    sobre o tempo e a eternaidade, p. 16

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  • “quem navega com a cabeça para fora d’água nada sabe. é preciso mergulhar, penetrar fundo nas águas. (…) nós, humanos, só conhecemos os rios na superfície. (…) nas funduras os rios são escuros e tranqüilos como os sofrimentos dos homens. essa eu não sabia, que os sofrimentos são escuros e tranqüilos.”

    sobre o tempo e a eternaidade, p.12

  • Leia as outras citações do livro: livros de cabeceira, sobre o tempo e a eternaidade
  • sobre o tempo e a eternaidade

    Sobre o Tempo e a EternaIdade / Rubem Alves
    - São Paulo: Papirus, 2003.
    164 páginas

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  • “‘come to bed’, dizia você, a partir das três horas, e eu respondia ‘i am coming’, e você: ‘don’t be coming, come!’”

    carta a d., p. 27

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  • beloved

    “tive muitas dificuldades com o amor (ao qual sartre dedicou umas trinta páginas de o ser e o nada), pois é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras.”

    carta a d., p. 25

  • Leia as outras citações do livro: carta a d. - história de um amor
  • “você havia me dado a possibilidade de escapar de mim mesmo e de me instalar num outro lugar, do qual você me trouxera a notícia. com você eu podia deixar de férias a minha realidade.

    carta a d., p. 20

  • Leia as outras citações do livro: carta a d. - história de um amor
  • “se você se une a alguém para a vida inteira, os dois estão pondo em comum sua vida e deixarão de fazer o que divide ou contraria a união. a construção do casal é um projeto comum aos dois, e vocês nunca terminarão de confirmá-lo, de adaptá-lo e de reorientá-lo em função das situações que forem mudando. nós seremos o que fizermos juntos.

    carta a d., p. 18

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  • casamento

    “eu tinha objeções de princípio, ideológicas. para mim o casamento era uma instituição burguesa; eu considerava que ele codificava juridicamente e socializava uma relação que, sendo amor, ligava duas pessoas no que elas tinham de menos social. a relação jurídica tinha a tendência, e até mesmo a missão, de se tornar autônoma no que se refere à experiência e aos sentimentos dos parceiros.”

    “eu devia ter percebido que não existia, para você, nenhuma relação com uma legalização da nossa união. ela deveria significar tão-somente que nós estávamos juntos pra valer, que eu estava pronto pra concluir com você aquele pacto para a vida inteira, pelo qual um prometia ao outro a sua lealdade, a sua devoção e a sua ternura.”

    carta a d., p. 18 e 21

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  • “por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, mas eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original - há pouco eu falava de “experiência fundadora”: a experiência da insegurança. […] para ambos, ela significava que não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós.”

    “e precisávamos criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que originalmente nos tinha sido negado. para isso, no entanto, seria necessário que o nosso amor fosse também um pacto para vida inteira.”

    carta a d., p. 13 e 15

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  • export only

    “você mantinha, em relação a tudo o que é british, uma distância crítica que não excluía a cumplicidade com o que lhe é familiar. eu dizia que você era uma export only, ou seja, um desses produtos reservados só para exportação, não encontráveis nem na própria grã-bretanha.”

    carta a d., p.11

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  • um lugar

    “o que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo. […] esse mundo me encantava. eu podia escapar ao entrar nele, sem obrigações nem pertencimento. com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo.

    carta a d., p. 10

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  • doação

    “compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. ”

    carta a d., p. 9

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  • minha vida

    “por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? […] ela permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”

    carta a d., p. 5-6

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  • carta a d. - uma história de amor

    carta a d. - história de um amor / andré gorz
    - são paulo: annablume: cosac naify, 2008.
    80 páginas.

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  • “— Finado Severino,
    quando passares em Jordão
    e o demônios te atalharem
    perguntando o que é que levas…

    — Dize que levas somente
    coisas de não:
    fome, sede, privação.”

    Morte e Vida Severina,

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  • “E se somos Severinos
    iguais em tudo na vida,
    morremos de morte igual,
    mesma morte Severina:
    que é a morte de que se morre
    de velhice antes dos trinta,
    de emboscada antes dos vinte
    de fome um pouco por dia
    (de fraqueza e de doença
    é que a morte Severina
    ataca em qualquer idade,
    e até gente não nascida).”

    Morte e Vida Severina,

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  • Morte e Vida Severina

    Morte e Vida Severina / João Cabral de Melo Neto
    - São Paulo: Nova Fronteira, 2006.
    167 páginas

    Depois de ler “Poeta e a Mídia - Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto”, onde são apresentadas comparações entre estes dois autores, fiquei instigado para ler alguma coisa de João Cabral de Melo Neto. Drummond é um dos meus preferidos, vou tentar entender o seu oposto: o lado mais racional e estético da poesia brasileira. E começo pelo clássico: Morte e Vida Severina.Morte e Vida Severina.

  • Leia as outras citações do livro: morte e vida severina
  • “Isto não deve espantar ninguém: os ianques, esses primeiros mecânicos do Mundo, são engenheiros, como os italianos são músicos e os alemães metafísicos - de nascença.”

    Da terra à lua,

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  • Da Terra à Lua.

    Da Terra à Lua / Julio Verne
    - São Paulo: Melhoramentos, 2005.
    126 páginas.

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  • “Disseque suas motivações mais profundamente! Achará que jamais alguém fez algo totamente para os outros. Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. […] Parece surpreso com esse comentário? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não ama a eles: ama isso sim as sensações agradáveis que tal amor produz em você! Ama o desejo, não o desejado.”

    Quando Nietzsche chorou, p. 151

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  • “Em outra seção deste livro, ele diz que sentimos ódio por quem devassa nossos segredos e nos flagra com sentimentos meigos.”

    Quando Nietzsche chorou, p. 122

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  • “Não, eu não estava pensando em escrever livros, mas em ler estes livros. Oh! A incessante labuta do intelectual, despejando todo este conhecimento para dentro do cérebro pela abertura de três milímetros da íris.”

    Quando Nietzsche chorou, p. 58

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  • “Não obstante, havia nele algo de extraordinariamente irresistível. As primeiras palavras que me disse foram: “De que estrelas caímos aqui um para o outro?” Então, nós três começamos a conversar. E que conversa!”

    Quando Nietzsche chorou, p. 33

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  • agonis

    “Em sua filosofia, é atraído pelos gregos pré-socráticos, especialmente pelo conceito deles de agonis - a crença de que desenvolvemos dons naturais somente através da luta -, e desconfia profundamente da motivação de quem quer que renuncie à luta e alegue ser altruísta. Seu mentor nesses assuntos foi Schopenhauer. Ninguém deseja, acredita ele, ajudar os outros; pelo contrário, as pessoas desejam apenas dominar e aumentar seu próprio poder.”

    Quando Nietzsche chorou, p. 30

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  • “Reduzi meus deveres a apenas um: perpetuar a minha liberdade. O casamento e seu séquito de possessão e ciúme escravizam o espírito. Eles jamais me dominarão. Espero, doutor Breuer, que chegue o tempo em que nem o homem, nem a mulher sejam tiranizados pelas fraquezas mútuas. ”

    Quando Nietzsche chorou, p. 23

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  • Quando Nietzche chorou

    Quando Nietzche chorou / Irvin D. Yalom.
    - São Paulo: Ediouro, 2003.
    407 páginas

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  • “De forma geral, não me detenho muito nessas recordações. Passados tantos anos, já perderam o poder de me afetar: o tempo neutralizou-as. Só puderam recobrar vida[s] deformadas, irreconhecíveis e ganhando, no decorrer de sua transformação, um sentido obsceno.”

    História do olho, p. 91

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  • “Mas, desde então, não havia mais dúvidas: eu não gostava daquilo a que se chama “os prazeres da carne”, justamente por serem insossos. Gostava de tudo o que era tido por “sujo”. Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com a devassidão habitual, porque ela só contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas o meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que imagino em sua presença e, sobretudo, o universo estrelado…”

    História do olho, p. 58

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  • via láctea

    “Deitei-me então na grama, o crânio apoiado numa pedra lisa e os olhos abertos sobre a Via Láctea, estranho rombo de esperma astral e de urina celeste cavado na caixa craniana das constelações.”

    História do olho, p. 57

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  • historiaolho.jpg

    História do olho / Georges Bataille.
    - São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
    135 páginas

    Esse livro foi recomendação da Renata.

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  • “O segredo, dizia Chang, o china da loja, não é o descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram. Mas Chang está morto. Existe algo mais íntimo para exibir ao mundo do que as entranhas? Existe algo tão obsceno?”

    Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 13

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  • “Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas.”

    Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 16.

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  • “Têm sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, velado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo o que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
    Não sei que nome você daria a isso.
    Bem, não importa muito, chame do que quiser.

    Eu chamo de amor.”

    Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 229

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  • “De repente, sem mais nem menos, Lavínia falou:
    Estou esperando um filho seu, Cauby.
    Alguém poderia escrever um manual sobre como se deve reagir a esse tipo de notícia, se as circunstâncias não forem favoráveis ao casal. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Seria bastante útil para homens como eu.”

    Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 183

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  • “O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que a gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse.”

    Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 154

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  • “Falei que estava planejando ir embora. Lavínia gritou do chuveiro:
    O que você disse?
    Entrei no banheiro e puxei a cortina de plástico. Ela ensaboava o corpo.
    Tô pensando em ir embora daqui.
    Pra onde?
    Não sei ainda. Talvez eu volte para São Paulo.
    Lavínia passou o sabonete entre as pernas, levantou um monte de espuma. E sonho.
    O que foi, bateu saudade de casa?
    Não posso ficar aqui para sempre, tenho que dar um jeito na minha vida.
    Ela guiou o jato do chuveirinho para o púbis. Desfez a espuma, não o sonho.”

    Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 133

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  • “Estou relendo o trecho em que o professor Schianberg se ocupa da separação dos amantes. As transitórias e as irremediáveis. Ele menciona um maluco norueguês que afundou um navio como oferenda pela volta da amada. O problema é que o navio não era dele, e deu cadeia. Eu afundaria todos os navios nesta noite, Lavínia. Incendiaria o porto. Só para ver o brilho das chamas refletido nos seus olhos escuros.”

    Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 18

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  • Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
    Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios / Marçal Aquino.
    - São Paulo: Companhia das letras, 2005.
    229 páginas

    Eu começo por esse. Ele que me fez não querer esquecer as pequenas identificações que impressionam quando eu começo a ler os mais queridos.

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